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  • Como a transexualidade me aprisionou

    nosoutras

    Parece que o problema começou quando o médico disse que aquilo no útero da minha mãe era uma garotinha. Sei que ela abriu um sorriso, já me contou várias vezes o quanto ela queria ter duas filhas.

    “Duas meninas, assim uma faz companhia pra outra e elas vão poder gostar das mesmas coisas!”

    Sei bem das roupas cor de rosa, dos presentes fofos e do cuidado excessivo, mas possivelmente minha primeira lembrança concreta vem junto com a voz da minha mãe falando:

    “Para com isso, Rafaela. A mamãe ta atrasada!”

    Era assim todas as manhãs. Minha mãe me acordava, me dava banho e me vestia. Eu rapidamente tirava a roupa e falava irritada “Eu ponho sozinha!”. Mas não demorou muito até alguém me falar que eu precisava de ajuda sim e que não aceitá-la era algo que uma menina realmente não poderia fazer.

    Lembro que no jardim de infância eu gostava de brincar com os garotos. Eles corriam mais, se divertiam mais e se ralavam mais. E se há algo que eu me lembro bem é do quanto eu odiava barbies. Nunca vi sentido naquela boneca idiota e não conseguia conceber a ideia de que aquilo fosse encarado como uma brincadeira.

    Com o tempo, meus gostos pessoais começaram deixar minha mãe preocupada. Eu não gostava de andar com as meninas e parecia não gostar de ser como elas. Então eu fui matriculada em aulas de balé e minha irmã em aulas de judô. É difícil descrever a inveja que eu senti. Ao menos minha mãe deixou que, ao contrário da saia, eu usasse uma calça de balé.Grande vitória pra quem não tinha nada.

    Conforme o tempo passava, parecia que cada vez mais a divisão entre meninos e meninas ficava mais forte e eu mais perdida. Eu queria me vestir como os garotos, mas minha mãe não permitia. Eu queria agir como os garotos, mas nunca me deixavam. Eu tinha raiva, muita raiva de tudo isso. 

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    A partir da primeira série, eu começo a lembrar de situações pontuais.

    Como a vez em que eu construí um castelo de areia gigante com uma amiga e alguns meninos passaram correndo e o destruíram. Eu queria brigar com eles e enfiar a cara de cada um deles na areia, mas eu fui reclamar para a professora, como uma garota.

    Como a vez em que eu desejava ser o Tarzan, ou o Aladdin, ou o Super-choque, mas fingia que, na verdade, eu só achava eles bonitos, para ninguém me julgar.

    Como a vez em que o Felipe…O Felipe me lembrou o que eu era: uma menina.

    O Felipe era um garoto que andava com os moleques da bagunça, aquele típico grupinho de meninos que faz as coisas erradas. Eu sentia medo dele e do bando, sempre parecia que eles iam fazer algo ruim. Um dia cheguei na escola e enquanto estava subindo as escadas, ele encostou em mim, me colocou contra a parede e falou algo como “E ai gatinha…”, e o resto eu esqueci. Não sei bem o que ele disse, só sei que chorei: chorei porque me senti impotente naquela situação, chorei porque não queria ele encostando em mim e falando o que quer que fosse. Procurei uma professora e depois disso o Felipe ficou longe.

    Mas eu não conseguia esquecer e, ao contrário de ter raiva do Felipe, eu fiquei com uma incrível inveja dele. Eu queria ser como ele: ter o direito de parar as meninas e falar o que eu quisesse, ter uma gangue, poder correr… eu queria ser um menino.

    Daí pra frente eu fantasiava com isso todos os dias. Cheguei a planejar uma rota de fuga entre o caminho da minha casa até a escola, onde eu jogaria as minhas roupas no lixo, colocaria uma touca e seria confundida com um garoto. E é lógico que nesse meu disfarce eu faria muito sucesso e o Felipe seria o meu melhor amigo.

    Ser um menino na escola era o que eu mais desejava.

    Na segunda e terceira série, o caminho para a divisão de gênero parecia cada vez maior. Eu me conformei em ser uma menina e me esforçava para parecer com as outras.

    Aos poucos, meu pai dizia o que as meninas deveriam fazer e como elas deveriam agir. Eu realmente não me parecia com o que ele falava, mas eu tentava, ainda que uma parte de mim me odiasse por estar fazendo isso.

    “Mulher tem que ser vaidosa e se cuidar!”

    Na quarta série, surgiram as primeiras baladinhas nas festas infantis e algumas meninas começaram a falar sobre namorar garotos. Na época, era basicamente andar de mãos dadas e dar selinho. Eu ficava um pouco perturbada com tudo aquilo. Eu não queria namorar os meninos, eu queria ser da turma deles! Mas parecia que essa não era uma opção.

    Na quinta série, eu resolvi ter um namoradinho. Eu não achava ele nada demais, mas minhas amigas falaram que ia ser muito bom se eu namorasse com ele. Ele era um dos garotos populares e foi com ele que eu dei o meu primeiro beijo. Depois disso, começamos a sair e ele sempre dizia que gostava mais de mim quando eu andava com o cabelo solto e passava maquiagem. Eu me sentia estúpida fazendo aquilo, mas a ideia de namorar um menino popular era excitante, e com isso, os outros meninos conversavam comigo.

    Eu acabei terminando com ele e quando isso aconteceu nenhum dos garotos continuou falando comigo, o que me deixou arrasada.

    Nesse meio tempo, e sem muitos amigos, eu descobri a música.

    Tudo na minha vida começou a ter um único tema: o rock. E todas as bandas que eu gostava eram de caras, óbvio.

    Comecei a sonhar em ter uma banda, tocar guitarra e virar uma grande rockstar. Depois que eu conseguisse meu dinheiro, eu cometeria um suicídio falso, pegaria toda a minha fortuna e pagaria várias cirurgias que me transformariam em um homem. Eu não sei muito bem como essa ideia de cirurgia surgiu no plano - eu nunca tinha lido nada sobre transexualidade -, só sei era uma parte realmente importante.

    Eu queria ser igual ao Kurt Cobain, então eu cortei o meu cabelo como o dele e usava algumas blusas extremamente folgadas em que as linhas do meu corpo se camuflavam. Quem me olhava de longe não fazia ideia do meu gênero.

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    Nesse meio tempo, eu também li que o Kurt Cobain se dizia bissexual. Eu achei que talvez eu fosse isso, embora eu nunca tivesse ficado com uma mulher. Pouco tempo passou até que eu comecei a gostar da minha melhor amiga. Todo o tempo que passávamos juntas parecia mágico e, pela primeira vez, eu não estava gostando de alguém porque queria ser igual a essa pessoa. A Melissa era incrível, inteligente, sorridente e encantadora e eu realmente queria arrumar alguma maneira de beijá-la.

    Um dia aconteceu uma festa na casa de uma amiga e eu estava determinada a fazer alguma coisa rolar. Então a gente bebeu bem mais do que devia e eu roubei um beijo dela. Ela odiou, achou nojento e repugnante. Foi horrível.

    “Ow! A Rafaela tá enfiando a língua na minha boca!”

    Passei os próximos meses aguentando brincadeiras sobre aquela noite e ouvindo a Melissa falar sobre o menino que ela gostava. Ele era um imbecil que não se importava com ela e eu era claramente melhor do que ele. Só tinha um problema: eu não era um homem.

    Depois da Melissa, eu comecei a achar que talvez fosse lésbica, mas deveria ter algum tipo de experiência pra conseguir definir as coisas. Então, eu decidi que a melhor maneira pra descobrir isso seria me vestindo de menino, indo em alguma balada e ficando com uma garota. Mas, pra isso acontecer, eu precisava ter coragem de fazer tudo sozinha. Só que eu não tinha.

    Essa ideia de me vestir e fingir ser um menino aumentava e chegou a níveis altos quando fizeram o “dia trocado” na escola. Eu fui vestida de homem e nunca recebi tantos elogios, principalmente das meninas. A professora de química, que nem sabia o meu nome, parou a aula pra dizer o quanto eu estava “um menino lindo, o mais bonito da escola”.

    O tempo passou e eu decidi que estava afim de ter uma banda de verdade. Isso nunca foi possível porque minha melhor amiga tocava baixo, e se eu continuasse com ela nunca faria sucesso - afinal, todas as bandas de meninas eram “horríveis” e “chatas”. Além disso, nossas tentativas de banda pareciam nunca dar certo e de alguma maneira eu passei a acreditar que isso acontecia porque éramos mulheres.

    Achei um menino na internet, marquei de sair com ele e quando eu o vi pela primeira vez, eu EXPLODI.

    Ele era exatamente TUDO o que eu queria ser: bonito, vocalista e tinha alguma coisa que simplesmente me enfeitiçava. Quando eu olhava pra ele, eu olhava para a imagem do que eu queria ser e do que eu poderia ter sido se eu não tivesse nascido mulher. Ele amava contar umas histórias mirabolantes da vida dele e eu sempre ficava babando.

    Eu formei uma banda com ele e isso me deixou muito entusiasmada. Finalmente, EU, numa banda cheia de caras!

    Então eles começaram a ficar afim de mim.

    Pois é, tinha uma mulher e alguém precisava ficar com a mulher, porque a mulher servia pra isso. Eu era uma comida ambulante que precisava ser devorada por alguém.

    Eu acabei namorando esse menino, o vocalista, e foi uma relação perturbadora e abusiva. Foi com ele que eu deixei de ser virgem. Antes dele, a única interação sexual que eu já tinha participado havia sido um beijo. Eu realmente gostei dele, mas era tão confuso. Eu nunca conseguia separar até onde ia meu desejo de ser como ele e até onde ia minha paixão de namorada. Lembro que, quando ele ficou nu na minha frente, eu ficava observando o corpo masculino com uma curiosidade gigantesca. Eu ficava imaginando como era ser um homem.

    Minha história com ele acabou quando eu o traí com uma menina, uma espécie de fuga pra fazer com que ele nunca mais falasse comigo. Depois que eu transei com ela, só conseguia pensar que eu precisava ficar com mais mulheres.

    Eu comecei a explorar e acabei me apaixonando por uma garota. A gente começou a namorar e, pela primeira vez, eu me sentia completamente feliz e realizada. Achei que as regras de gênero haviam me abandonado e eu poderia viver em paz. Mas era obvio que isso não ia acontecer. Como ela era muito feminina, eu comprei vários vestidos e achei que essa seria a maneira certa, já que eu não conseguia lidar bem com as pessoas me tratando como o “homem da relação”. Além disso, ela sempre repetia o quanto não gostava de casais assim, polarizados. Eu me sentia péssima naquelas roupas, mas ela adorava e sempre me elogiava.

    “Você tá tão linda com esse vestido! Cê devia usar mais.”

    Eu coloquei na minha cabeça que uma hora ou outra eu deveria descobrir minha feminilidade, nem que fosse a forçando ao extremo. Eu estava cansada de não me encaixar nos moldes. Era sufocante: nas roupas exclusivamente masculinas eu via uma garotinha fingindo ser o homem que ela não é; nas roupas femininas, a sensação era próxima a de um ácido corroendo a minha pele.

    “Se é pra ficar com mulher vestida de homem eu prefiro ficar com homem”

    Nessa busca pelo meio-termo, eu conseguia me satisfazer com as poucas oportunidades que tinha. Como na vez em que eu fui numa festa usando terno e parecia que magicamente eu estava sendo tratada excepcionalmente melhor. Eu nunca me senti tão bem. De terno e com cabelo no rosto eu era um homem, era a imagem do que estava dentro de mim.

    No final daquele ano, eu descobri a existência da transexualidade masculina.

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    Quanto mais eu lia, mais eu me identificava. Quanto mais eu me identificava, mais eu achava explicações para essa sequência de fatos da minha vida.

    “Testosterona: o passaporte para a felicidade”. Era isso o que um dos vídeos dizia - e o que eu sentia.

    Mas eu tinha medo.

    Era tão grande que eu precisava de uma boa desculpa pra ficar pesquisando sobre o tema sem que ninguém desconfiasse. Então eu inventei uma pesquisa sobre transexualidade e passei a usar isso como o meu álibi.

    Eu conversei com garotos trans, vi vlogs, li textos, comprei livros, fui em debates, assisti filmes e cada vez mais parecia que tudo fazia sentido.

    Eu finalmente poderia ser um homem de verdade! A resposta estava na minha frente e a um passo.

    Aquele menino que eu criei na minha cabeça, aquela versão minha que era realmente feliz e fazia as coisas que queria, tinha um nome: Henrique. E o Henrique criaria vida!

    Eu conseguiria as coisas que eu sempre desejei, ocuparia os espaços que eu sempre quis e seria LIVRE.

    Mas não é tão fácil. Descobrir que a disforia (crises de extremo ódio ao próprio corpo) existe parece ser o primeiro passo pra poder sentí-la. Foi um ano perturbador, entre chorar em provadores de loja, me sentir confortável usando um binder, comprar minha primeira cueca, deixar os pelos crescerem e lidar com o medo de encarar a minha condição. Quanto mais eu conseguia afirmar que eu era um homem, mas eu sentia medo do que aquilo mudaria na minha vida. Mas mesmo o medo nunca parecia tão grande quanto a felicidade que eu sentia por ter descoberto tudo aquilo.

    Todas as peças pareciam estar no lugar, tudo parecia estar desvendado, o grande mistério estava resolvido. Eu já pensava nas coisas incríveis que eu faria assim que passasse pela transição!

    Então eu apenas continuei vivendo enquanto planejava tudo.

    Numa  busca constante pela autoafirmação da minha masculinidade, eu ainda sentia o ambiente feminista como confortável e acolhedor, apesar de crer que eu não era uma mulher. Lá estavam as minhas amigas, as mulheres que eu gostava e, de alguma maneira, eu não queria ser um homem estúpido.

    Certo dia, fui em uma reunião auto-organizada (só para mulheres) e eu realmente me senti invadindo o espaço, já que a vivência de todas aquelas mulheres parecia simplesmente não se aplicar a mim. De qualquer forma, eu ainda não havia me assumido, mas assim que acabou aquela reunião, comecei a sentir uma urgência gigantesca para fazer isso.

    Eu já estava saindo do lugar, quando uma amiga veio conversar comigo. Eu estava  realmente desesperada naquela hora e falei que eu estava tendo alguns problemas com o meu gênero, e que eu não me via como uma mulher, que era estranho estar ali – na hora não disse que eu me enxergava como um homem.

    Então ela me perguntou: “Mas o que é ser mulher?”. A partir disso, conversamos por quatro horas sem parar. É engraçado pensar que eu nunca tinha me feito essa pergunta antes, mas de prontidão eu sempre soube a resposta. SER MULHER É O QUE EU NÃO SOU.

    Em meio à conversa, ela me contou sobre outras perspectivas de gênero e me prometeu mandar alguns textos sobre isso.  

    “Se o conceito de identidade de gênero tivesse me encontrado dez anos atrás, eu não escreveria nesse blog. Eu me assemelharia a todas as pessoas que renegam o termo mulher e abraçam outros termos, outros rótulos, e se frustram porque o exterior - o meu e o do mundo - não parecem aceitar isso. Eu ainda seria exatamente a mesma pessoa, com os mesmos gostos e a mesma personalidade, mas haveria uma importante diferença: eu veria as mulheres como, de certa forma, inferiores a mim.”
                    http://saforiana.blogspot.com.br/2014/05/nao-ser-mulher.html

    Quando eu li, vi a verdade do meu gênero ser confrontada. Foram tantos anos pra achar uma resposta, sofrendo sem nenhuma solução, e agora que eu tinha um caminho a seguir, eu sabia o que fazer. Então eu tentei fugir dessas outras perspectivas de gênero.

    Mas a certeza tinha cedido um lugar para a dúvida.

    Eu convivia com muitos homens trans na época e a convivência quase diária começou a me fazer questionar. Perguntei pra um amigo que tinha ganhado passibilidade (estava sendo lido socialmente como homem) o que deixava ele feliz no dia-a-dia. Ele me contou que agora quando ele a namorada iam ao restaurante, o garçom dava sempre a conta pra ele. Outro amigo era do interior e a família só passou a aceitar a namorada dele quando ele transicionou e começou a ser visto como um homem.  Teve um que me contou, aliviado, sobre o quão incrível foi se assumir e poder começar usar as roupas que ele sempre quis, mas nunca pode.

    Eu ouvia todas essas histórias e podia sentir a felicidade deles e com eles, porque passar por aquilo era o que eu mais desejava. Mas eu havia aprendido um conceito novo que insistia em me perseguir e me fazer questionar aquela possível felicidade.

    Eu havia aprendido o que são os papéis de gênero.

    Papel de gênero é basicamente a divisão em dois polos separando o que é considerado “de menino” e “de menina”. É através do papel de gênero que se justifica vestir uma menina de rosa e dar um carrinho pra um garoto, mandar a menina falar baixo e incentivar o menino a enfrentar os problemas sozinho. É falar para a menina que ela não deve raspar a cabeça e que o garoto não pode deixar o seu cabelo crescer.  Os papéis de gênero demarcam o que se espera das pessoas, um protocolo da maneira “correta” de se agir de acordo com o gênero que você foi designado.

    Era oficial, eu estava enfrentado outro tornado avassalador na minha vida. E eu só queria concluir uma resposta o mais rápido possível.

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    Então, depois de ler e pensar muito, eu comecei a chegar em algumas conclusões.

    Foram os papéis de gênero que determinaram o que eu podia ou não fazer, foram eles que me jogaram para fora da caixinha “mulher”, do estereótipo, foram eles que me disseram o que era aceito ou não, o que eu podia ou não fazer, como eu deveria ou não agir. Pois são eles que moldaram os meus pais, os meus professores e a sociedade em geral. E o que ela faz é reproduzí-los. Como se essa fosse a “ordem natural das coisas”.

    Minha vida foi roubada.

    Pensando nisso, e questionando a ideia de identidade de gênero (quando uma pessoa se identifica com um gênero), eu consegui perceber.

    A vontade de ser o Henrique existia pra suprir todas as vezes em que tiraram o direito da Rafaela viver como queria. O Henrique existia para fazer o que a Rafaela não podia fazer por um único motivo, uma única condição: a Rafaela, eu - EU NASCI MULHER.

    Quando o médico apontou para o útero e disse que ali existia uma menina, logo me foi imposta a condição de ser tratada como um objeto masculino, um ser humano secundário, de ser o outro. Me foi imposta a condição de não poder ser agressiva, forte, poderosa, de não poder brincar de carrinho, ter uma banda de rock, lutar karate, brigar com os outros, usar cueca, ficar com as meninas, jogar futebol, ter cabelo curto, usar terno, andar sem camisa, sair à noite, beber até cair, liderar um grupo, ser astronauta, falar com a voz alta, comprar roupas na sessão masculina, entrar no bate-cabeça no show de rock, ter uma gangue, andar de skate, ser chefe.

    Enfim, foi imposta a condição de eu não poder ser quem eu sou ou viver o que eu quero. Não poder ser eu.

    Foram meses de desconstrução. Meses até entender que eu não precisava ser um homem pra fazer nenhuma nessas coisas. E que a sensação divina de ser tratada como um homem e ser reconhecida como um, nada mais era do que o sentimento de liberdade. Pois, como mulher, fui aprisionada por uma série de “nãos” que sempre cercaram minha vida.

    Entendi que querer ser o Henrique seria entrar no jogo do papel de gênero, e não quebrá-lo!

    Descobri que só existe uma maneira de quebrar essa estrutura que tanto me fez mal: destruir a noção de papel de gênero. Me encaixar em qualquer novo rótulo seria automaticamente entrar para uma nova estrutura de papel de gênero esperado, uma nova caixa.

    Ser um homem trans seria me conformar com todas essas correntes que me prenderam e me atrofiaram. Me conformar que de fato uma mulher não nasceu para fazer nenhuma das coisas que eu sempre quis e que eu preciso ser um homem para isso.

    Se me foi imposto que eu sou mulher, então que seja essa minha maior arma contra os papeis de gênero.

    É muito difícil aceitar a minha condição, muito difícil quebrar as regras, quando, na verdade, uma parte de mim só quer se sentir confortável sendo vista como um homem qualquer. Foi e é difícil conseguir lidar com o ódio que nutri durante anos contra tudo aquilo que é tido como feminino. Eu odiei tanto as coisas que me obrigaram a gostar, que eu passei a odiar meu próprio corpo. Porque, afinal, era culpa dele sempre ser tratada de
    maneira inferior. Por culpa desse corpo errado, fui obrigada a gostar das
    coisas que nunca gostei, fazer coisas que eu nunca quis. 

    Mas existe uma força pessoal gigantesca que me move. Quero romper com aquilo que tanto me sufocou e sufoca. Quero abolir o gênero, abraçar outras mulheres e dizer “Você é mulher, independente do que você gosta ou do que você faz. Você é alguém que pode lutar junto comigo para destruir essa noção de que pra ser mulher é necessário seguir um protocolo do que permitido ou não fazer. Nós somos mais que isso, nosso corpo é a nossa arma de revolução diária.”

    E se existe um jeito de começar quebrando isso todos os dias, é me olhando no espelho e afirmando: meu nome é Rafaela.



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